A Dança das Ilusões
Bjarke Rink

Conceito chave: As ilusões dos sentidos fazem parte da nossa vida cotidiana e algumas foram indispensáveis na nossa evolução. Haverá um poderoso jogo de ilusões que nos permite realizar o que está além da nossa possibilidade física, e que no passado exerceu assombrosa influência em como vivemos hoje? Palavra chave: evolução biológica.

Nós, humanos, criamos uma civilização global através da construção de dois sistemas críticos — transporte e comunicação. Este processo teve início na Era Neolítica quando algum pastor de animais nas estepes da Eurásia descobriu que um cavalo podia ser guiado a partir de uma posição sobre o seu dorso. Através desta extraordinária descoberta surgiu o fenômeno equitação com a qual a humanidade quebrou a barreira da sua velocidade biológica, fato que teve uma dramática conseqüência antropológica: acelerou a velocidade da História além da compreensão humana.
Ninguém parece ter-se dado conta da aceleração do processo histórico, depois que o homem aprendeu a diminuir o tempo/espaço quase infinitamente aumentando a velocidade do seu corpo. (1) Com o desenvolvimento do fenômeno equitação a humanidade se tornou a úni-ca espécie do planeta a quebrar o limite da sua velocidade biológica — fenômeno sem o qual hoje não teríamos luz elétrica, computadores, telefones celulares nem internet!
Isto porque o fenômeno equitação provocou a aceleração do processo de transcultura-ção entre os povos da Eurásia que passaram a viajar na velocidade das pernas do cavalo e não mais na velocidade das pernas humanas. A este fenômeno chamaremos de dinâmica eqüestre (2) e ela foi a maior responsável pelo desenvolvimento cultural da Eurásia em comparação às regiões do planeta destituídas de cavalos – as Américas, a Austrália e a região abaixo do Saara na África.
Mas, atenção tripulante desta viagem além da percepção humana: quando experimen-tamos algo extraordinário na fronteira da percepção (3) estamos também navegando na fron-teira da ciência, uma zona perigosamente situada entre a feitiçaria e a medicina, a astrologia e a astronomia, a alquimia e a química, a ciência e o charlatanismo. Portanto, ao adentrarmos no universo mágico da danças das ilusões, vamos nos ater aos paradigmas da ciência para não cairmos em contradição científica.

Srs. Passageiros: Por favor, apertem o cinto de segurança, voltem a sua imaginação para a po-sição vertical, porque vamos entrar numa zona de turbulência intelectual que muitas pessoas acham difícil de suportar. (Não sei se por arrogância de sustentar idéias consagradas, ou preguiça inte-lectual de substituir paradogmas empíricos por paradigmas científicos).

Antes de decolarmos faço das palavras de Carl Sagan as minhas: ‘Não explicar a ciên-cia me parece perverso. Quando alguém está apaixonado, quer contar a todo mundo. Esta tese é um testemunho pessoal de meu caso de amor com a ciência, que já dura toda uma vida’.

Srs passageiros: deixemos a imaginação decolar.

O vôo do besouro é uma impossibilidade teórica que só funciona na prática. Para o observa-dor, é perfeitamente compreensível que uma águia possa desafiar a lei da gravidade e voar — claro, suas grandes asas, corpo emplumado, e uma cauda leve e ágil lhe dão a estrutura deter-minante da máquina voadora perfeita. Já o besouro não parece ao observador ter o physique du role exigido para desafiar a lei da gravidade. Mas desafia.
O que determina o vôo da águia e do besouro são as suas estruturas cerebrais em per-feito alinhamento biomecânico com seus corpos. Entretanto, o cérebro dos animais e, em es-pecial o cérebro humano, são as estruturas mais complexas e menos compreendidas do Uni-verso. A função primordial do cérebro é nos manter vivos, latu senso. É o nosso cérebro que, informado por nossos sentidos, determina como, quando e onde devemos correr para não ser-mos mordidos pelo cachorro. Mas a nossa mente, que faz o trabalho do cérebro, nos prega inúmeras peças.
A ciência reconhece vários tipos de ilusões dos sentidos: ilusões de contrastes, ilusões de figura/fundo, ilusão de estímulos, ilusão de cor, ilusão estérea, ilusão de movimento relati-vo, ilusão de luz e sombra, ambigüidade perceptiva, ilusão de amorfoses e trompe, ilusões arquitetônicas, ilusão de déja-vu, e tome ilusão. Sendo a humanidade uma espécie altamente visual, as ilusões óticas (4) são as mais comuns, apesar de que todos os nossos sentidos estão sujeitos a serem enganados por ilusões e, como veremos, isto beneficiou a evolução da espécie e nos ajudou a chegar até aqui.
Como prova concreta de uma ilusão de ótica, observe na ilustração a água do aqueduto que parece subir ao invés de descer. Esta é uma das inúmeras ilustrações de M.S. Escher, o artista plástico holandês, capaz de criar ilusões de ótica que desafiam o nosso senso de pers-pectiva, confundem o sentido de figura/fundo e embaralham o senso gravitacional. Mas não são apenas os nossos olhos que podem ser enganados por ilusões de ótica: todos os nossos sentidos podem ser levados a cometer enganos—ou seja, aquilo que eles parecem informar ao cérebro não existe no mundo real. Richard Dawkins sugere que o cérebro de um macaco tem de ter um software capaz de simular o quebra-cabeça tri-dimensional do emaranhado de ga-lhos e troncos da floresta. Como veremos adiante, é evidente que nós humanos de fato her-damos dos nossos ancestrais um software com a capacidade de lidar com o meio-ambiente instável da copa das árvores. E este software continua até hoje tendo múltiplas utilidades para muitos de nós.
Voltemos, pois, ao fenômeno equitação.
Assim como o vôo do besouro, o fenômeno equitação é uma impossibilidade teórica que só funciona na prática. Por quê? Porque um animal menor não tem, teoricamente, condi-ções de dominar um animal maior. Trocando em miúdos: Homo sapiens, pesando em média 1/6 do Equus caballus, não possui a estrutura determinante para dominar o animal maior, mais forte e veloz. Mas consegue. Como?
Desde criança eu montava em meus cavalos esperando que surgisse um Copérnico na minha vida para explicar por que os cavalos permitiam que um menino como eu pudesse mon-tá-los e conduzi-los e por que, às vezes, eu tinha problemas em dominar um animal. Mais tar-de, com a minha paisagem mental fortalecida com aulas de ciência surgiram mais perguntas: por que o cavalo permite que o homem o monte e o conduza? E depois de descobrir a neurofi-siologia mais outra: como podem o homem e o cavalo formar uma só unidade galopante?
O mais espantoso desse questionamento é que ninguém o havia feito antes, visto que a descoberta dos reflexos condicionados de Pavlov está intimamente associada aos paradigmas do fenômeno equitação.
Certo dia, entretanto, Copérnico entrou pela minha porta na forma de uma revista con-tendo um artigo intitulado Riding Reflex Chains – Cadeia de Reflexos da Equitação — um estudo neurológico que esclarecia por que um cavalo “obedece” ao cavaleiro... e porque às vezes “desobedece”. O meu Copérnico foi o veterinário patologista americano, Dr. James Ro-oney que, como um raio de luz, (5) alargou a fronteira da minha percepção.
O artigo explicava os princípios biomecânicos da motricidade eqüina e como as anda-duras do cavalo não são diretamente controladas pelo seu cérebro, mas por duas dilatações nervosas situadas na medula espinhal — uma na região cervical e a outra na região lombar. Isto significava que as andaduras do cavalo — passo, trote e galope — são executadas auto-maticamente, não necessitando do controle cerebral direto do animal para sustentá-las.
Depois de tomar conhecimento desta espantosa revelação ficou claro para mim que se alguém descobrisse de que maneira o sistema nervoso humano se alinha aos ciclos musculares do cavalo e como o cérebro humano substitui o cérebro do cavalo para exercer o controle do fenômeno equitação, o enigma do Centauro (6) estaria desvendado.
Infelizmente depois do artigo de Dr. Rooney nunca mais se escreveu sobre o assunto e um dia resolvi eu mesmo tentar conduzir a “operação resgate” de como o homem e o cavalo podem conectar os seus sistemas sensório-motores e formar uma unidade biológica capaz de produzir o fenômeno equitação.
Esta busca mudou radicalmente a minha vida e a de meus familiares.
Para viabilizar o projeto, a primeira decisão foi a de mudar definitivamente para a nos-sa fazenda e ter os cavalos como vizinhos e, se possível, depender deles economicamente. Foi assim que os nômades da Ásia Central desenvolveram o seu vasto conhecimento eqüestre, e eu e minha mulher Mara decidimos seguir em suas pegadas. Foi aí que eu descobri que “Não existe fenômeno, por mais complexo que seja, que ao ser examinado com cuidado não se tor-nará ainda mais complexo”, como afirmou David Krech, citado por George Page (7).
Para me aprofundar nos estudos do fenômeno equitação, acabei me envolvendo em se-te domínios do conhecimento humano, a saber: as simbioses do mundo animal, psicologia, fisiologia, neurofisiologia, biomecânica, comunicação e cibernética. Estes conhecimentos me deixaram sobrevoando a epistemologia da equitação, que então decidi acometer.

Por que estudar a epistemologia da equitação quando mais de 40.000 obras já foram escritas sobre diversos aspectos do cavalo, desde o seu manejo, as aplicações veterinárias, a sua parti-cipação na história, além dos inúmeros tratados de como treinar e montar a cavalo, pergunta-rão os conformados, sempre satisfeitos em repetir o que já se conhece.
O estudo me parece válido porque sendo o significado da palavra epistemologia essen-cialmente ‘o estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências, destinado a obter a sua origem lógica, o seu valor, a sua importância objetiva e seus limites’, nada jamais foi escrito sobre o fenômeno equitação que objetivasse esclarecer estas questões. Nenhum estudo já revelou a origem biológica da equitação, ou hipótese formulou o efeito da equitação sobre a expansão da mente do cavaleiro, a pressão social da equitação sobre a orga-nização hierárquica das sociedades eqüestres, a expansão territorial permitida pela dinâmica eqüestre, o impacto militar do poder eqüestre sobre as sociedades não eqüestres (8), e o efeito do fenômeno equitação sobre a economia, a tecnologia e a política dos países eqüestres, e so-bre a própria ecologia do planeta. Isto sem falar de como o homem e o cavalo conseguem de-finir os seus papéis vitais e produzir o fenômeno equitação. Do ponto de vista da ciência o fenômeno equitação sempre foi uma terra de ninguém.
Os manuais de treinamento de cavalos se resumem a uma descrição mecânica dos pro-cedimentos, como se um cavalo aprendesse equitação como um cachorro aprende a “obede-cer” o dono. As palavras “obediência” e “submissão” são recorrentes nesse tipo de literatura e não existe nada mais enganoso para explicar como o cavalo consegue cumprir a sua função no fenômeno equitação da maneira que podemos observar nos animais de nível olímpico.
Iniciaremos, portanto, as nossas explorações do fenômeno equitação com uma pergun-ta capciosa: ‘Será o homem dotado de um poder metafísico que lhe permite dominar o cava-lo?’ Esta pergunta parece altamente tentadora já que o antropocentrismo (9) e o antropomor-fismo (10) dominam o pensamento do homem, quando não a ilusão da supremacia humana sobre as outras espécies do planeta. Esta última, uma fantasia delirante em algumas pessoas, principalmente (mas não exclusivamente) daquelas com pouco conhecimento científico.
Depois de dez anos de investigação teórica e de experimentos práticos montando deze-nas de cavalos e registrando suas reações aos comandos clássicos, a equitação se revelou o maior jogo de ilusões que os sistemas nervosos já pregaram em duas espécies animais. Nada, absolutamente nada, é o que parece ao observador (e ao próprio equitador).
Para explicar o sistema nervoso animal – homem, borboleta ou elefante — utilizarei a lúcida definição de Dr. Humberto R. Maturana:
‘O relacionamento interno do sistema nervoso de um animal é relativa-mente simples: é o balanço entre atividade sensorial e tonicidade muscular. To-do comportamento animal é uma visão externa da dança das relações internas do organismo. O funcionamento de um sistema nervoso é totalmente consisten-te com a parte formativa da unidade autônoma em que cada estado de atividade leva a um outro estado de atividade da mesma unidade (do homem, da borbole-ta ou do elefante), porque a operação é circular, ou seja, o sistema nervoso for-ma uma closura operacional’.
Do ponto de vista da biologia da percepção (11) o fenômeno equitação pode ser defi-nido como um terceiro sistema biológico autônomo produzido com o sincronismo dos siste-mas nervosos do homem e do cavalo que se unem em uma única ação com movimentos e obje-tivos alinhados. A origem dos movimentos eqüestre parte do sistema sensório-motor do cavalo e os objetivos da equitação — o esporte ou o trabalho — partem do neocórtex humano.

Por favor, em caso da inversão do fluxo digestivo, use o saquinho plástico que se encontra na bolsa da poltrona à sua frente e depois chame a aeromoça.

No fenômeno equitação o sincronismo dos sistemas nervosos do homem e do cavalo é possibilitado pelas semelhanças das suas atividades cerebrais e fisiológicas, mas também em razão das diferenças entre suas estrutura determinantes que faz o conjunto incrivelmente complementar.
Do ponto de vista do cavalo, a equitação de alta sensibilidade, que chamo de equita-ção simbiótica, é uma ação que ele imagina comandar enquanto transporta uma pessoa amiga nas costas. Há, no conjunto homem-cavalo, umas conspirações entre o cavalo e o cavaleiro de fazer coisas juntos – de aceitação mútua.
Mas como pode o cavalo supor que é ele quem comanda o fenômeno equitação?
Em primeiro lugar, as pessoas, ao julgarem o comportamento eqüino, sempre se esque-cem que o cavalo — como indivíduo — é o centro do seu universo e que o equocentrismo e o equomorfismo é a sua forma de perceber o mundo. Se cavalo acreditasse em Deus, a imagem da sua divindade seria, sem dúvida, semelhante a um cavalo. Em segundo lugar, a leitura erra-da do seu sentido de propriocepção (12) faz o animal incorporar automaticamente os estímu-los do cavaleiro aos seus próprios movimentos. Exemplo: através de repetição sistemática, as ajudas do cavaleiro para as mudanças de velocidade e direção passam a ser percebidas pelo cavalo apenas como o início do seu próprio movimento e não como “ordens” partindo do ca-valeiro. Os estímulos sutis provocados pelas pernas do cavaleiro, que estarão trabalhando ri-gorosamente dentro dos ciclos motores do cavalo, são captados pelas dilatações nervosas si-tuadas na região lombar do animal fazendo com que o cérebro do cavaleiro passe a substituir o cérebro do cavalo que responde automaticamente aos estímulos na ilusão de que é ele quem está no comando! O cérebro humano preenche o vão apontado por Dr. James Rooney, na sua explicação sobre o automatismo da motricidade eqüina.
Atenção: os estímulos do cavaleiro só serão remetidos ao cérebro do cavalo em caso deste provocar dor no animal. Chicotes e esporas mal utilizados alertam o cavalo de que o indivíduo em suas costas é um corpo estranho e isso pode provocar a sua rebeldia.
Portanto, durante o desenrolar do fenômeno equitação as esporas e a embocadura não são registrados pela consciência do cavalo como sendo manipulados pelo cavaleiro. Através de treinamento em busca dos movimentos “certos” o cavalo aprendeu a realizar as mudanças de velocidade e direção através das mudanças de posição da embocadura, sem necessariamen-te relacioná-la com a ação do cavaleiro. (No fenômeno equitação o cavalo utiliza a orientação da embocadura como um navegante usa uma bússola.) As esporas, sutilmente usadas, atuam como estímulos para a retração e protração dos membros, que na velocidade da ação são in-corporados à dança das ilusões do cavalo. O cavaleiro na sela atua como um sistema central de manejo, sem ser um instrumento de dominação.
Muitos cavaleiros têm dificuldade de entender que o cavalo não “obedece” às suas or-dens de modo lógico e linear como imaginavam. Isto provavelmente ocorre por pertencerem a uma cultura obcecada pelo controle e o domínio sobre o meio e ignoram a possibilidade da coordenação consensual de conduta entre as espécies na natureza.
Agora, com a ajuda do biólogo Dr. António Damásio, e do veterinário Dr. Gustavo Braune, passaremos a estudar a dança das ilusões que permitem o cavaleiro/amazona montar e conduzir um cavalo com segurança a partir de uma posição no seu dorso.

Atenção Srs. passageiros: em caso de despressurização cerebral, máscaras de oxigênio cairão automaticamente do compartimento acima... Pegue a que estiver mais próxima, afixe-a sobre o nariz e a boca e respire normalmente.

O fenômeno equitação é para o cavaleiro um jogo de ilusões ainda mais complexo. Isto porque o cérebro humano, sendo estruturalmente mais complexo, é também mais sujeito a fazer leituras erradas dos sentidos. A primeira, e talvez mais importante ilusão humana no fenômeno equitação, é justamente quando o cavaleiro imagina estar “controlando” o cavalo através do uso da embocadura. Física e psicologicamente não é possível “controlar” um cava-lo através da embocadura sem antes tê-lo controlado emocionalmente. Ganhar a confiança do animal é, pois, condição sine-qua-non para desencadear o fenômeno equitação. Como vimos, a embocadura serve para ajudar a “guiar” o cavalo, mas não para “controlá-lo”. Isto porque a equitação de alta sensibilidade é a conseqüência de uma relação simbiótica interespécies e não de uma relação escravista do tipo eu mando e você obedece, como é o caso da montaria de baixa sensibilidade. Mas as ilusões humanas acerca do fenômeno equitação não param aí.
O equilíbrio do cavaleiro sobre o dorso do cavalo é fortalecido através dos estribos que provocam uma ilusão perceptiva denominada ilusão de base. A ilusão de base vivenciada pelo cavaleiro tem origem em uma adaptação cerebral que remonta à própria evolução da es-pécie humana — precisamente dos primatas braquiais da nossa fase arbórea. Para encontrar estabilidade no topo das árvores os antepassados desenvolveram um tipo de cérebro capaz de produzir uma sensação de estabilidade, mesmo que ilusória, quando se movimentavam na copa das árvores. (O fenômeno sugerido pelo Dr. Richard Dawkins). A ilusão de base permite ao indivíduo aumentar o seu equilíbrio assim como a luz permite aumentar a visão.
Na vida moderna, a ilusão de base permite, entre outras coisas, que equilibristas an-dem na “corda bamba”, e realizem acrobacias tendo como base uma bola, roda ou outro ele-mento instável. George Page sugere que ‘a vinculação íntima com o mundo natural pode ser a nossa primeira e mais importante herança cultural’. Isto é uma verdade absoluta que pode ser comprovada através do fenômeno equitação. A não ser o homem, nenhum outro animal seria capaz de levar um cavalo ao nível olímpico de excelência esportiva como no Adestramento, Salto ou Rédeas. Entretanto, um cachorro, gato ou chimpanzé seria igualmente capaz de a-prender a se equilibrar sobre um cavalo, mas estes animais não seriam capazes de conduzi-lo. Este é um domínio exclusivo da evolução do cérebro humano e de suas ramificações nervosas, herdadas dos ancestrais primatas.

Atenção, Srs. passageiros: afivelem o cinto de segurança porque vamos entrar em zona de tur-bulência intelectual ainda maior.

Como é possível o homem moderno ter resquícios comportamentais de seus antepas-sados primatas que viveram há milhões de anos? Este fenômeno pode ser explicado através de uma evidência científica que chamamos de “arquivos genéticos” (13). Com o passar dos tem-pos, os animais sofrem mutações aleatórias que, através da seleção natural proposta por Dar-win, os adaptam para sobreviver às mudanças ambientais. Entretanto, habilidades que lhes foram úteis no passado não desaparecem ao se tornarem supérfluas, mas submergem para ní-veis inferiores da memória onde são “arquivados” e permanecem em estado latente. Para res-gatá-las, basta que as habilidades se tornem novamente estimuladas — como é o caso dos gi-nastas olímpicos Daiane dos Santos e Diego Hipólito, por exemplo.
A compreensão de como o homem e o cavalo se comunicam durante uma reprise de Adestramento é possível através da neurofisiologia: o cavaleiro corretamente posicionado sobre o dorso do cavalo produz, ele mesmo, os movimentos que deseja que o cavalo reprodu-za; o animal por sua vez os capta e os replica através de terminais nervosos espalhados sobre a superfície da pele (14). Mas como pode o homem executar os movimentos do cavalo já que o homem é bipedal e se desloca na vertical e o cavalo é quadrupedal e se desloca na horizontal?

Atenção: em caso de pouso n’água o assento da poltrona é flutuante.

Aqui entra na dança das ilusões mais um “arquivo genético”: o do movimento quadru-pedal humano, que herdamos dos tempos em que os nossos antepassados eram quadrúpedes. O vestígio deste fenômeno pode ser verificado pelo fato de que até hoje andamos com a alter-nância dos movimentos da perna direita em sincronismo com o movimento do braço esquerdo, e vice-versa; padrão de movimentos originários do nosso estágio quadrupedal.
No fenômeno equitação os movimentos amplos — as passadas do cavalo — são esti-mulados pelo sistema locomotor do cavaleiro (as pernas) e automaticamente reproduzidos pelo sistema locomotor do cavalo. Os movimentos finos — o limite de velocidade e direção do cavalo — são sugeridos através da manipulação das rédeas e, por sua vez, decifrados pelo cavalo com a ajuda da embocadura. A habilidade do cavaleiro de manipular as rédeas, assim como a do cavalo de decifrar o código de comunicação das rédeas, têm uma origem biológica semelhante.
Para eliminar espinhos, ou partes indesejáveis dos alimentos, os humanos desenvolve-ram uma sensibilidade manual extraordinária possibilitada por sensores nervosos especializa-dos situados nos dedos. O cavalo, por sua vez, faz a seleção alimentar com a boca, e desen-volveu nas comissuras labiais, na língua e na cavidade bucal, uma sensibilidade semelhante, que também lhe permite eliminar partes indesejáveis da alimentação. Quando a mão do cava-leiro e a boca do cavalo interagem através das rédeas, estes dois órgãos supersensíveis fazem a transmissão e a leitura dos movimentos finos do fenômeno equitação utilizando a embocadura como ferramenta. Um fenômeno de comunicação dinâmica que em nada difere de quando dançamos com uma donzela/donzelo. (Sendo que a donzela tem plena consciência de que é o homem que a conduz, mas o cavalo não).
Mas como explicar este desnível cognitivo entre o homem e o cavalo?
Se analisarmos a estrutura cerebral de um cavalo, observaremos que no topo do seu cé-rebro existe o córtex que controla seu movimento muscular e aprendizado. Já no cérebro hu-mano existe, acima do córtex o neocórtex, a sede das capacidades de aprendizado e abstração de que o homem é capaz. O neocórtex permite ao cavaleiro decorar percursos, isto é, memori-zar longas cadeias de reflexos da equitação permitindo-o, na dança das ilusões, antecipar e modificar o movimento do cavalo.
No fenômeno equitação o universo interior do homem e do cavalo — os estados emo-cionais e movimentos corporais — tornam-se estreitamente ligados numa complexa coreogra-fia de coordenação comportamental onde a dança das ilusões, mesmo sendo despercebida pelos parceiros, se transforma em dança física. (Sim, dançamos com o cavalo). O fenômeno equitação é uma dança interespécies - e a coreografia só se consegue através da mudança comportamental do homem e do cavalo que envolve, inclusive, mudanças anatômicas do cé-rebro dos parceiros. Um cavalo e um cavaleiro de alta-performance terão desenvolvido mu-danças anatômicas (upgrading) do cérebro que os fazem diferentes de um cavalo e de uma pessoa que nunca praticaram o fenômeno equitação (15).
O fenômeno equitação é uma síntese da suprema inteligência animal, onde cooperação, coordenação de movimentos, coragem de enfrentar obstáculos, audácia, intuição, espírito de cooperação, são possibilitados por corpos que se reconhecem e interagem. O homem é a mol-dura e o cavalo a pintura. O único homem a capturar em sua totalidade a imagem do fenômeno equitação foi o escultor grego Phidias (16) que através da imagem do Centauro – um corpo de cavalo combinado com um tronco e uma cabeça humana – celebra com perfeição a simbiose neurofisiológica que mais contribuiu para transformar o mundo como hoje a conhecemos.

(1) Com o cavalo, o homem quebrou a barreira da sua velocidade genética pela primeira vez. Bicicletas, automó-veis, aviões e foguetes espaciais foram a sua conseqüência. (2) Chamamos de dinâmica eqüestre o conjunto de ações de cavaleiros civis e militares sobre o Planeta. (3) Percepção ou cognição, é o processo do qual o input sensório é transformado e elaborado pelo cérebro. (4) Uma ilusão ótica é sempre caracterizada por imagens visu-ais que, em termos normais, são enganosas – ou seja, é uma leitura errada dos fenômenos que só existe na nossa imaginação. Na ilusão de ótica a informação colhida pelos olhos é processada pelo cérebro e o resultado do pro-duto visual não condiz com a realidade física da fonte visual. Quando, por exemplo, estamos num elevador que supomos vai subir, e ele desce, somos enganados por uma ilusão de queda. (5) O artigo Riding Reflex Chains foi publicado pela revista Equus, sob a editoria médica do Dr. Matthew-MacKay Smith. (6) Enigma do centauro é uma expressão utilizada para definir as questões desconhecidas da união sensório-motora do homem e do cavalo durante o fenômeno equitação. (7) George Page, autor de Inside the Animal’s Mind, da editora Doubleday. (8) Poder eqüestre é uma expressão que utilizo para definir o uso político/militar do cavalo. (9) Antropomorfismo define o pensamento simplista de atribuir características humanas ao não humano. (10) Antropocentrismo define o pensamento de que o homem é o “centro” do universo animal. (11) Biologia da cognição ou percepção é um conceito científico proposto por Humberto R. Maturana. (12) Sentido de Propriocepção é a capacidade de perce-ber a si próprio, ou melhor, a capacidade que tem o indivíduo de ‘sentir’ em que posições estão os seus membros. O sentido é formado por sensores anatômicos localizados nas juntas. No fenômeno equitação, o cavaleiro e o cavalo desenvolverão esta percepção em relação aos movimentos do parceiro. (13) Arquivo genético, uma pro-posta científica do Médico Veterinário Dr. Gustavo Braune. (14) As rédeas que conectam a boca do cavalo com as mãos do cavaleiro são também utilizadas para ajudar o cavaleiro a “induzir” o cavalo a tomar a posição correta para facilitar o início dos movimentos e a manutenção dos movimentos. (15) Segundo Oliver Sacks todo apren-dizado intensivo como a música, por exemplo, muda a anatomia do cérebro. (16) Phidias – c480aC-c430 a.C. foi escultor grego e também o arquiteto da Acrópole de Atenas.

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