Conceito
chave: As ilusões dos sentidos fazem parte da nossa
vida cotidiana e algumas foram indispensáveis
na nossa evolução. Haverá um poderoso
jogo de ilusões que nos permite realizar o que
está além da nossa possibilidade física,
e que no passado exerceu assombrosa influência em
como vivemos hoje? Palavra chave: evolução
biológica.
Nós,
humanos, criamos uma civilização global
através da construção de dois sistemas
críticos — transporte e comunicação.
Este processo teve início na Era Neolítica
quando algum pastor de animais nas estepes da Eurásia
descobriu que um cavalo podia ser guiado a partir de uma
posição sobre o seu dorso. Através
desta extraordinária descoberta surgiu o fenômeno
equitação com a qual a humanidade quebrou
a barreira da sua velocidade biológica, fato que
teve uma dramática conseqüência antropológica:
acelerou a velocidade da História além da
compreensão humana.
Ninguém parece ter-se dado conta da aceleração
do processo histórico, depois que o homem aprendeu
a diminuir o tempo/espaço quase infinitamente aumentando
a velocidade do seu corpo. (1) Com o desenvolvimento do
fenômeno equitação a humanidade se
tornou a úni-ca espécie do planeta a quebrar
o limite da sua velocidade biológica — fenômeno
sem o qual hoje não teríamos luz elétrica,
computadores, telefones celulares nem internet!
Isto porque o fenômeno equitação provocou
a aceleração do processo de transcultura-ção
entre os povos da Eurásia que passaram a viajar
na velocidade das pernas do cavalo e não mais na
velocidade das pernas humanas. A este fenômeno chamaremos
de dinâmica eqüestre (2) e ela foi a maior
responsável pelo desenvolvimento cultural da Eurásia
em comparação às regiões do
planeta destituídas de cavalos – as Américas,
a Austrália e a região abaixo do Saara na
África.
Mas, atenção tripulante desta viagem além
da percepção humana: quando experimen-tamos
algo extraordinário na fronteira da percepção
(3) estamos também navegando na fron-teira da ciência,
uma zona perigosamente situada entre a feitiçaria
e a medicina, a astrologia e a astronomia, a alquimia
e a química, a ciência e o charlatanismo.
Portanto, ao adentrarmos no universo mágico da
danças das ilusões, vamos nos ater aos paradigmas
da ciência para não cairmos em contradição
científica.
Srs. Passageiros: Por favor, apertem o cinto de segurança, voltem a sua imaginação para a po-sição vertical, porque vamos entrar numa zona de turbulência intelectual que muitas pessoas acham difícil de suportar. (Não sei se por arrogância de sustentar idéias consagradas, ou preguiça inte-lectual de substituir paradogmas empíricos por paradigmas científicos).
Antes de decolarmos faço das palavras de Carl Sagan as minhas: ‘Não explicar a ciên-cia me parece perverso. Quando alguém está apaixonado, quer contar a todo mundo. Esta tese é um testemunho pessoal de meu caso de amor com a ciência, que já dura toda uma vida’.
Srs passageiros: deixemos a imaginação decolar.
O
vôo do besouro é uma impossibilidade teórica
que só funciona na prática. Para o observa-dor,
é perfeitamente compreensível que uma águia
possa desafiar a lei da gravidade e voar — claro,
suas grandes asas, corpo emplumado, e uma cauda leve e
ágil lhe dão a estrutura deter-minante da
máquina voadora perfeita. Já o besouro não
parece ao observador ter o physique du role exigido para
desafiar a lei da gravidade. Mas desafia.
O que determina o vôo da águia e do besouro
são as suas estruturas cerebrais em per-feito alinhamento
biomecânico com seus corpos. Entretanto, o cérebro
dos animais e, em es-pecial o cérebro humano, são
as estruturas mais complexas e menos compreendidas do
Uni-verso. A função primordial do cérebro
é nos manter vivos, latu senso. É o nosso
cérebro que, informado por nossos sentidos, determina
como, quando e onde devemos correr para não ser-mos
mordidos pelo cachorro. Mas a nossa mente, que faz o trabalho
do cérebro, nos prega inúmeras peças.
A ciência reconhece vários
tipos de ilusões dos sentidos: ilusões de
contrastes, ilusões de figura/fundo, ilusão
de estímulos, ilusão de cor, ilusão
estérea, ilusão de movimento relati-vo,
ilusão de luz e sombra, ambigüidade perceptiva,
ilusão de amorfoses e trompe, ilusões arquitetônicas,
ilusão de déja-vu, e tome ilusão.
Sendo a humanidade uma espécie altamente visual,
as ilusões óticas (4) são as mais
comuns, apesar de que todos os nossos sentidos estão
sujeitos a serem enganados por ilusões e, como
veremos, isto beneficiou a evolução da espécie
e nos ajudou a chegar até aqui.
Como prova concreta de uma ilusão de ótica,
observe na ilustração a água do aqueduto
que parece subir ao invés de descer. Esta é
uma das inúmeras ilustrações de M.S.
Escher, o artista plástico holandês, capaz
de criar ilusões de ótica que desafiam o
nosso senso de pers-pectiva, confundem o sentido de figura/fundo
e embaralham o senso gravitacional. Mas não são
apenas os nossos olhos que podem ser enganados por ilusões
de ótica: todos os nossos sentidos podem ser levados
a cometer enganos—ou seja, aquilo que eles parecem
informar ao cérebro não existe no mundo
real. Richard Dawkins sugere que o cérebro de um
macaco tem de ter um software capaz de simular o quebra-cabeça
tri-dimensional do emaranhado de ga-lhos e troncos da
floresta. Como veremos adiante, é evidente que
nós humanos de fato her-damos dos nossos ancestrais
um software com a capacidade de lidar com o meio-ambiente
instável da copa das árvores. E este software
continua até hoje tendo múltiplas utilidades
para muitos de nós.
Voltemos, pois, ao fenômeno equitação.
Assim como o vôo do besouro, o fenômeno equitação
é uma impossibilidade teórica que só
funciona na prática. Por quê? Porque um animal
menor não tem, teoricamente, condi-ções
de dominar um animal maior. Trocando em miúdos:
Homo sapiens, pesando em média 1/6 do Equus caballus,
não possui a estrutura determinante para dominar
o animal maior, mais forte e veloz. Mas consegue. Como?
Desde criança eu montava em meus cavalos esperando
que surgisse um Copérnico na minha vida para explicar
por que os cavalos permitiam que um menino como eu pudesse
mon-tá-los e conduzi-los e por que, às vezes,
eu tinha problemas em dominar um animal. Mais tar-de,
com a minha paisagem mental fortalecida com aulas de ciência
surgiram mais perguntas: por que o cavalo permite que
o homem o monte e o conduza? E depois de descobrir a neurofi-siologia
mais outra: como podem o homem e o cavalo formar uma só
unidade galopante?
O mais espantoso desse questionamento é que ninguém
o havia feito antes, visto que a descoberta dos reflexos
condicionados de Pavlov está intimamente associada
aos paradigmas do fenômeno equitação.
Certo dia, entretanto, Copérnico entrou pela minha
porta na forma de uma revista con-tendo um artigo intitulado
Riding Reflex Chains – Cadeia de Reflexos da Equitação
— um estudo neurológico que esclarecia por
que um cavalo “obedece” ao cavaleiro... e
porque às vezes “desobedece”. O meu
Copérnico foi o veterinário patologista
americano, Dr. James Ro-oney que, como um raio de luz,
(5) alargou a fronteira da minha percepção.
O artigo explicava os princípios biomecânicos
da motricidade eqüina e como as anda-duras do cavalo
não são diretamente controladas pelo seu
cérebro, mas por duas dilatações
nervosas situadas na medula espinhal — uma na região
cervical e a outra na região lombar. Isto significava
que as andaduras do cavalo — passo, trote e galope
— são executadas auto-maticamente, não
necessitando do controle cerebral direto do animal para
sustentá-las.
Depois de tomar conhecimento desta
espantosa revelação ficou claro para mim
que se alguém descobrisse de que maneira o sistema
nervoso humano se alinha aos ciclos musculares do cavalo
e como o cérebro humano substitui o cérebro
do cavalo para exercer o controle do fenômeno equitação,
o enigma do Centauro (6) estaria desvendado.
Infelizmente depois do artigo de Dr. Rooney nunca mais
se escreveu sobre o assunto e um dia resolvi eu mesmo
tentar conduzir a “operação resgate”
de como o homem e o cavalo podem conectar os seus sistemas
sensório-motores e formar uma unidade biológica
capaz de produzir o fenômeno equitação.
Esta busca mudou radicalmente a minha vida e a de meus
familiares.
Para viabilizar o projeto, a primeira decisão foi
a de mudar definitivamente para a nos-sa fazenda e ter
os cavalos como vizinhos e, se possível, depender
deles economicamente. Foi assim que os nômades da
Ásia Central desenvolveram o seu vasto conhecimento
eqüestre, e eu e minha mulher Mara decidimos seguir
em suas pegadas. Foi aí que eu descobri que “Não
existe fenômeno, por mais complexo que seja, que
ao ser examinado com cuidado não se tor-nará
ainda mais complexo”, como afirmou David Krech,
citado por George Page (7).
Para me aprofundar nos estudos do
fenômeno equitação, acabei me envolvendo
em se-te domínios do conhecimento humano, a saber:
as simbioses do mundo animal, psicologia, fisiologia,
neurofisiologia, biomecânica, comunicação
e cibernética. Estes conhecimentos me deixaram
sobrevoando a epistemologia da equitação,
que então decidi acometer.
Por
que estudar a epistemologia da equitação
quando mais de 40.000 obras já foram escritas sobre
diversos aspectos do cavalo, desde o seu manejo, as aplicações
veterinárias, a sua parti-cipação
na história, além dos inúmeros tratados
de como treinar e montar a cavalo, pergunta-rão
os conformados, sempre satisfeitos em repetir o que já
se conhece.
O estudo me parece válido porque sendo o significado
da palavra epistemologia essen-cialmente ‘o estudo
crítico dos princípios, das hipóteses
e dos resultados das diversas ciências, destinado
a obter a sua origem lógica, o seu valor, a sua
importância objetiva e seus limites’, nada
jamais foi escrito sobre o fenômeno equitação
que objetivasse esclarecer estas questões. Nenhum
estudo já revelou a origem biológica da
equitação, ou hipótese formulou o
efeito da equitação sobre a expansão
da mente do cavaleiro, a pressão social da equitação
sobre a orga-nização hierárquica
das sociedades eqüestres, a expansão territorial
permitida pela dinâmica eqüestre, o impacto
militar do poder eqüestre sobre as sociedades não
eqüestres (8), e o efeito do fenômeno equitação
sobre a economia, a tecnologia e a política dos
países eqüestres, e so-bre a própria
ecologia do planeta. Isto sem falar de como o homem e
o cavalo conseguem de-finir os seus papéis vitais
e produzir o fenômeno equitação. Do
ponto de vista da ciência o fenômeno equitação
sempre foi uma terra de ninguém.
Os manuais de treinamento de cavalos se resumem a uma
descrição mecânica dos pro-cedimentos,
como se um cavalo aprendesse equitação como
um cachorro aprende a “obede-cer” o dono.
As palavras “obediência” e “submissão”
são recorrentes nesse tipo de literatura e não
existe nada mais enganoso para explicar como o cavalo
consegue cumprir a sua função no fenômeno
equitação da maneira que podemos observar
nos animais de nível olímpico.
Iniciaremos, portanto, as nossas explorações
do fenômeno equitação com uma pergun-ta
capciosa: ‘Será o homem dotado de um poder
metafísico que lhe permite dominar o cava-lo?’
Esta pergunta parece altamente tentadora já que
o antropocentrismo (9) e o antropomor-fismo (10) dominam
o pensamento do homem, quando não a ilusão
da supremacia humana sobre as outras espécies do
planeta. Esta última, uma fantasia delirante em
algumas pessoas, principalmente (mas não exclusivamente)
daquelas com pouco conhecimento científico.
Depois de dez anos de investigação teórica
e de experimentos práticos montando deze-nas de
cavalos e registrando suas reações aos comandos
clássicos, a equitação se revelou
o maior jogo de ilusões que os sistemas nervosos
já pregaram em duas espécies animais. Nada,
absolutamente nada, é o que parece ao observador
(e ao próprio equitador).
Para explicar o sistema nervoso animal – homem,
borboleta ou elefante — utilizarei a lúcida
definição de Dr. Humberto R. Maturana:
‘O relacionamento interno
do sistema nervoso de um animal é relativa-mente
simples: é o balanço entre atividade sensorial
e tonicidade muscular. To-do comportamento animal é
uma visão externa da dança das relações
internas do organismo. O funcionamento de um sistema nervoso
é totalmente consisten-te com a parte formativa
da unidade autônoma em que cada estado de atividade
leva a um outro estado de atividade da mesma unidade (do
homem, da borbole-ta ou do elefante), porque a operação
é circular, ou seja, o sistema nervoso for-ma uma
closura operacional’.
Do ponto de vista da biologia da percepção
(11) o fenômeno equitação pode ser
defi-nido como um terceiro sistema biológico autônomo
produzido com o sincronismo dos siste-mas nervosos do
homem e do cavalo que se unem em uma única ação
com movimentos e obje-tivos alinhados. A origem dos movimentos
eqüestre parte do sistema sensório-motor do
cavalo e os objetivos da equitação —
o esporte ou o trabalho — partem do neocórtex
humano.
Por favor, em caso da inversão do fluxo digestivo,
use o saquinho plástico que se encontra na bolsa
da poltrona à sua frente e depois chame a aeromoça.
No
fenômeno equitação o sincronismo dos
sistemas nervosos do homem e do cavalo é possibilitado
pelas semelhanças das suas atividades cerebrais
e fisiológicas, mas também em razão
das diferenças entre suas estrutura determinantes
que faz o conjunto incrivelmente complementar.
Do ponto de vista do cavalo, a equitação
de alta sensibilidade, que chamo de equita-ção
simbiótica, é uma ação que
ele imagina comandar enquanto transporta uma pessoa amiga
nas costas. Há, no conjunto homem-cavalo, umas
conspirações entre o cavalo e o cavaleiro
de fazer coisas juntos – de aceitação
mútua.
Mas como pode o cavalo supor que é ele quem comanda
o fenômeno equitação?
Em primeiro lugar, as pessoas, ao julgarem o comportamento
eqüino, sempre se esque-cem que o cavalo —
como indivíduo — é o centro do seu
universo e que o equocentrismo e o equomorfismo é
a sua forma de perceber o mundo. Se cavalo acreditasse
em Deus, a imagem da sua divindade seria, sem dúvida,
semelhante a um cavalo. Em segundo lugar, a leitura erra-da
do seu sentido de propriocepção (12) faz
o animal incorporar automaticamente os estímu-los
do cavaleiro aos seus próprios movimentos. Exemplo:
através de repetição sistemática,
as ajudas do cavaleiro para as mudanças de velocidade
e direção passam a ser percebidas pelo cavalo
apenas como o início do seu próprio movimento
e não como “ordens” partindo do ca-valeiro.
Os estímulos sutis provocados pelas pernas do cavaleiro,
que estarão trabalhando ri-gorosamente dentro dos
ciclos motores do cavalo, são captados pelas dilatações
nervosas si-tuadas na região lombar do animal fazendo
com que o cérebro do cavaleiro passe a substituir
o cérebro do cavalo que responde automaticamente
aos estímulos na ilusão de que é
ele quem está no comando! O cérebro humano
preenche o vão apontado por Dr. James Rooney, na
sua explicação sobre o automatismo da motricidade
eqüina.
Atenção: os estímulos do cavaleiro
só serão remetidos ao cérebro do
cavalo em caso deste provocar dor no animal. Chicotes
e esporas mal utilizados alertam o cavalo de que o indivíduo
em suas costas é um corpo estranho e isso pode
provocar a sua rebeldia.
Portanto, durante o desenrolar do fenômeno equitação
as esporas e a embocadura não são registrados
pela consciência do cavalo como sendo manipulados
pelo cavaleiro. Através de treinamento em busca
dos movimentos “certos” o cavalo aprendeu
a realizar as mudanças de velocidade e direção
através das mudanças de posição
da embocadura, sem necessariamen-te relacioná-la
com a ação do cavaleiro. (No fenômeno
equitação o cavalo utiliza a orientação
da embocadura como um navegante usa uma bússola.)
As esporas, sutilmente usadas, atuam como estímulos
para a retração e protração
dos membros, que na velocidade da ação são
in-corporados à dança das ilusões
do cavalo. O cavaleiro na sela atua como um sistema central
de manejo, sem ser um instrumento de dominação.
Muitos cavaleiros têm dificuldade de entender que
o cavalo não “obedece” às suas
or-dens de modo lógico e linear como imaginavam.
Isto provavelmente ocorre por pertencerem a uma cultura
obcecada pelo controle e o domínio sobre o meio
e ignoram a possibilidade da coordenação
consensual de conduta entre as espécies na natureza.
Agora, com a ajuda do biólogo Dr. António
Damásio, e do veterinário Dr. Gustavo Braune,
passaremos a estudar a dança das ilusões
que permitem o cavaleiro/amazona montar e conduzir um
cavalo com segurança a partir de uma posição
no seu dorso.
Atenção Srs. passageiros: em caso de despressurização cerebral, máscaras de oxigênio cairão automaticamente do compartimento acima... Pegue a que estiver mais próxima, afixe-a sobre o nariz e a boca e respire normalmente.
O
fenômeno equitação é para o
cavaleiro um jogo de ilusões ainda mais complexo.
Isto porque o cérebro humano, sendo estruturalmente
mais complexo, é também mais sujeito a fazer
leituras erradas dos sentidos. A primeira, e talvez mais
importante ilusão humana no fenômeno equitação,
é justamente quando o cavaleiro imagina estar “controlando”
o cavalo através do uso da embocadura. Física
e psicologicamente não é possível
“controlar” um cava-lo através da embocadura
sem antes tê-lo controlado emocionalmente. Ganhar
a confiança do animal é, pois, condição
sine-qua-non para desencadear o fenômeno equitação.
Como vimos, a embocadura serve para ajudar a “guiar”
o cavalo, mas não para “controlá-lo”.
Isto porque a equitação de alta sensibilidade
é a conseqüência de uma relação
simbiótica interespécies e não de
uma relação escravista do tipo eu mando
e você obedece, como é o caso da montaria
de baixa sensibilidade. Mas as ilusões humanas
acerca do fenômeno equitação não
param aí.
O equilíbrio do cavaleiro sobre o dorso do cavalo
é fortalecido através dos estribos que provocam
uma ilusão perceptiva denominada ilusão
de base. A ilusão de base vivenciada pelo cavaleiro
tem origem em uma adaptação cerebral que
remonta à própria evolução
da es-pécie humana — precisamente dos primatas
braquiais da nossa fase arbórea. Para encontrar
estabilidade no topo das árvores os antepassados
desenvolveram um tipo de cérebro capaz de produzir
uma sensação de estabilidade, mesmo que
ilusória, quando se movimentavam na copa das árvores.
(O fenômeno sugerido pelo Dr. Richard Dawkins).
A ilusão de base permite ao indivíduo aumentar
o seu equilíbrio assim como a luz permite aumentar
a visão.
Na vida moderna, a ilusão de base permite, entre
outras coisas, que equilibristas an-dem na “corda
bamba”, e realizem acrobacias tendo como base uma
bola, roda ou outro ele-mento instável. George
Page sugere que ‘a vinculação íntima
com o mundo natural pode ser a nossa primeira e mais importante
herança cultural’. Isto é uma verdade
absoluta que pode ser comprovada através do fenômeno
equitação. A não ser o homem, nenhum
outro animal seria capaz de levar um cavalo ao nível
olímpico de excelência esportiva como no
Adestramento, Salto ou Rédeas. Entretanto, um cachorro,
gato ou chimpanzé seria igualmente capaz de a-prender
a se equilibrar sobre um cavalo, mas estes animais não
seriam capazes de conduzi-lo. Este é um domínio
exclusivo da evolução do cérebro
humano e de suas ramificações nervosas,
herdadas dos ancestrais primatas.
Atenção, Srs. passageiros: afivelem o cinto
de segurança porque vamos entrar em zona de tur-bulência
intelectual ainda maior.
Como
é possível o homem moderno ter resquícios
comportamentais de seus antepas-sados primatas que viveram
há milhões de anos? Este fenômeno
pode ser explicado através de uma evidência
científica que chamamos de “arquivos genéticos”
(13). Com o passar dos tem-pos, os animais sofrem mutações
aleatórias que, através da seleção
natural proposta por Dar-win, os adaptam para sobreviver
às mudanças ambientais. Entretanto, habilidades
que lhes foram úteis no passado não desaparecem
ao se tornarem supérfluas, mas submergem para ní-veis
inferiores da memória onde são “arquivados”
e permanecem em estado latente. Para res-gatá-las,
basta que as habilidades se tornem novamente estimuladas
— como é o caso dos gi-nastas olímpicos
Daiane dos Santos e Diego Hipólito, por exemplo.
A compreensão de como o homem e o cavalo se comunicam
durante uma reprise de Adestramento é possível
através da neurofisiologia: o cavaleiro corretamente
posicionado sobre o dorso do cavalo produz, ele mesmo,
os movimentos que deseja que o cavalo reprodu-za; o animal
por sua vez os capta e os replica através de terminais
nervosos espalhados sobre a superfície da pele
(14). Mas como pode o homem executar os movimentos do
cavalo já que o homem é bipedal e se desloca
na vertical e o cavalo é quadrupedal e se desloca
na horizontal?
Atenção: em caso de
pouso n’água o assento da poltrona é
flutuante.
Aqui
entra na dança das ilusões mais um “arquivo
genético”: o do movimento quadru-pedal humano,
que herdamos dos tempos em que os nossos antepassados
eram quadrúpedes. O vestígio deste fenômeno
pode ser verificado pelo fato de que até hoje andamos
com a alter-nância dos movimentos da perna direita
em sincronismo com o movimento do braço esquerdo,
e vice-versa; padrão de movimentos originários
do nosso estágio quadrupedal.
No fenômeno equitação os movimentos
amplos — as passadas do cavalo — são
esti-mulados pelo sistema locomotor do cavaleiro (as pernas)
e automaticamente reproduzidos pelo sistema locomotor
do cavalo. Os movimentos finos — o limite de velocidade
e direção do cavalo — são sugeridos
através da manipulação das rédeas
e, por sua vez, decifrados pelo cavalo com a ajuda da
embocadura. A habilidade do cavaleiro de manipular as
rédeas, assim como a do cavalo de decifrar o código
de comunicação das rédeas, têm
uma origem biológica semelhante.
Para eliminar espinhos, ou partes indesejáveis
dos alimentos, os humanos desenvolve-ram uma sensibilidade
manual extraordinária possibilitada por sensores
nervosos especializa-dos situados nos dedos. O cavalo,
por sua vez, faz a seleção alimentar com
a boca, e desen-volveu nas comissuras labiais, na língua
e na cavidade bucal, uma sensibilidade semelhante, que
também lhe permite eliminar partes indesejáveis
da alimentação. Quando a mão do cava-leiro
e a boca do cavalo interagem através das rédeas,
estes dois órgãos supersensíveis
fazem a transmissão e a leitura dos movimentos
finos do fenômeno equitação utilizando
a embocadura como ferramenta. Um fenômeno de comunicação
dinâmica que em nada difere de quando dançamos
com uma donzela/donzelo. (Sendo que a donzela tem plena
consciência de que é o homem que a conduz,
mas o cavalo não).
Mas como explicar este desnível cognitivo entre
o homem e o cavalo?
Se analisarmos a estrutura cerebral de um cavalo, observaremos
que no topo do seu cé-rebro existe o córtex
que controla seu movimento muscular e aprendizado. Já
no cérebro hu-mano existe, acima do córtex
o neocórtex, a sede das capacidades de aprendizado
e abstração de que o homem é capaz.
O neocórtex permite ao cavaleiro decorar percursos,
isto é, memori-zar longas cadeias de reflexos da
equitação permitindo-o, na dança
das ilusões, antecipar e modificar o movimento
do cavalo.
No fenômeno equitação o universo interior
do homem e do cavalo — os estados emo-cionais e
movimentos corporais — tornam-se estreitamente ligados
numa complexa coreogra-fia de coordenação
comportamental onde a dança das ilusões,
mesmo sendo despercebida pelos parceiros, se transforma
em dança física. (Sim, dançamos com
o cavalo). O fenômeno equitação é
uma dança interespécies - e a coreografia
só se consegue através da mudança
comportamental do homem e do cavalo que envolve, inclusive,
mudanças anatômicas do cé-rebro dos
parceiros. Um cavalo e um cavaleiro de alta-performance
terão desenvolvido mu-danças anatômicas
(upgrading) do cérebro que os fazem diferentes
de um cavalo e de uma pessoa que nunca praticaram o fenômeno
equitação (15).
O fenômeno equitação é uma
síntese da suprema inteligência animal, onde
cooperação, coordenação de
movimentos, coragem de enfrentar obstáculos, audácia,
intuição, espírito de cooperação,
são possibilitados por corpos que se reconhecem
e interagem. O homem é a mol-dura e o cavalo a
pintura. O único homem a capturar em sua totalidade
a imagem do fenômeno equitação foi
o escultor grego Phidias (16) que através da imagem
do Centauro – um corpo de cavalo combinado com um
tronco e uma cabeça humana – celebra com
perfeição a simbiose neurofisiológica
que mais contribuiu para transformar o mundo como hoje
a conhecemos.
(1) Com o cavalo, o homem quebrou a barreira da sua velocidade genética pela primeira vez. Bicicletas, automó-veis, aviões e foguetes espaciais foram a sua conseqüência. (2) Chamamos de dinâmica eqüestre o conjunto de ações de cavaleiros civis e militares sobre o Planeta. (3) Percepção ou cognição, é o processo do qual o input sensório é transformado e elaborado pelo cérebro. (4) Uma ilusão ótica é sempre caracterizada por imagens visu-ais que, em termos normais, são enganosas – ou seja, é uma leitura errada dos fenômenos que só existe na nossa imaginação. Na ilusão de ótica a informação colhida pelos olhos é processada pelo cérebro e o resultado do pro-duto visual não condiz com a realidade física da fonte visual. Quando, por exemplo, estamos num elevador que supomos vai subir, e ele desce, somos enganados por uma ilusão de queda. (5) O artigo Riding Reflex Chains foi publicado pela revista Equus, sob a editoria médica do Dr. Matthew-MacKay Smith. (6) Enigma do centauro é uma expressão utilizada para definir as questões desconhecidas da união sensório-motora do homem e do cavalo durante o fenômeno equitação. (7) George Page, autor de Inside the Animal’s Mind, da editora Doubleday. (8) Poder eqüestre é uma expressão que utilizo para definir o uso político/militar do cavalo. (9) Antropomorfismo define o pensamento simplista de atribuir características humanas ao não humano. (10) Antropocentrismo define o pensamento de que o homem é o “centro” do universo animal. (11) Biologia da cognição ou percepção é um conceito científico proposto por Humberto R. Maturana. (12) Sentido de Propriocepção é a capacidade de perce-ber a si próprio, ou melhor, a capacidade que tem o indivíduo de ‘sentir’ em que posições estão os seus membros. O sentido é formado por sensores anatômicos localizados nas juntas. No fenômeno equitação, o cavaleiro e o cavalo desenvolverão esta percepção em relação aos movimentos do parceiro. (13) Arquivo genético, uma pro-posta científica do Médico Veterinário Dr. Gustavo Braune. (14) As rédeas que conectam a boca do cavalo com as mãos do cavaleiro são também utilizadas para ajudar o cavaleiro a “induzir” o cavalo a tomar a posição correta para facilitar o início dos movimentos e a manutenção dos movimentos. (15) Segundo Oliver Sacks todo apren-dizado intensivo como a música, por exemplo, muda a anatomia do cérebro. (16) Phidias – c480aC-c430 a.C. foi escultor grego e também o arquiteto da Acrópole de Atenas.
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